Se os objetivos do atual governo dos Estados Unidos são defensáveis é um debate que pode render páginas. Mas há um ponto que independe de juízo de valor: quando a maior economia do planeta opera política externa e comercial como instrumento de pressão, ora por tarifas, ora por sanções, ora por exigências de relocalização produtiva, o efeito colateral inevitável é instabilidade nas relações internacionais. E instabilidade, para capital produtivo, é imposto invisível.
A economia real (fábricas, cadeias de suprimento, infraestrutura, tecnologia) não vive de bravatas nem viradas bruscas. Vive de previsibilidade, regras claras, horizonte minimamente estável. A volatilidade extrema premia o especulador e pune o investidor de longo prazo. O mercado da incerteza até cria oportunidades, mas raramente para quem busca construir algo que leve anos para maturar.
Quando a imprevisibilidade deixa de ser exceção e vira método no epicentro do sistema financeiro, o mundo reprecifica confiança. E confiança, no mercado, funciona como oxigênio: ninguém percebe até começar a faltar.
É nesse cenário de vendaval que o Brasil se encontra diante de uma janela histórica. O país tem chance de transformar turbulência global em ganho relativo, mas corre sério risco de repetir os erros dos anos 2000 se acreditar que sorte, por si só, é o suficiente.
1) O custo econômico da imprevisibilidade
A narrativa oficial de Washington tem sido reciprocidade e defesa de interesses nacionais, com acordos e medidas desenhados para forçar reequilíbrios comerciais e induzir investimentos em solo americano. Basta ver como a Casa Branca enquadra seus movimentos recentes em torno de comércio recíproco, redução de barreiras e reancoragem de vantagens produtivas e comerciais.
O problema não é negociar duro, isso sempre existiu. O problema é quando critérios parecem variar conforme o parceiro, o momento ou o interesse do dia. A consequência prática: empresas e governos passam a precificar o risco de ausência de regras. Esse risco encarece decisão de investimento, reduz apetite por projetos intensivos em capital e alonga prazos de retorno. O dinheiro fica mais seletivo e mais curto.
Quando a potência que deveria ser âncora do sistema vira fonte de ruído, o mundo se reorganiza.
2) O fim do porto seguro automático
Por décadas, os títulos do Tesouro americano foram tratados como ativo sem risco do sistema. Mesmo quando a crise era nos próprios EUA, o reflexo global era correr para os títulos públicos americanos: liquidez, profundidade e previsibilidade institucional.
O que muda agora não é o fim desse papel, seria simplificação. O que muda é o prêmio de confiança. Confiança se constrói com estabilidade de regras e neutralidade percebida do sistema financeiro.
O uso do sistema financeiro como arma de guerra geopolítica alterou a percepção de risco. Depois da invasão russa à Ucrânia em 2022, EUA e aliados imobilizaram reservas russas. Estimativas apontam cerca de €260 bilhões identificados como reservas russas imobilizadas, com grande parte sob jurisdição europeia. A discussão deixou de ser apenas congelar para virar como usar rendimentos (os ganhos extraordinários gerados por esses ativos) e estruturas de financiamento vinculadas a eles.
Em paralelo, o caso venezuelano ganhou contornos ainda mais explosivos: em janeiro de 2026, a captura de Nicolás Maduro por forças americanas virou tema de debate de legalidade no âmbito internacional, com críticas sobre precedentes e soberania no próprio sistema ONU.
O ponto não é torcer por um lado. É constatar o efeito sistêmico: quando ativos e jurisdições passam a ser percebidos como instrumentos geopolíticos mais agressivos, grandes detentores de reservas começam a fazer a pergunta silenciosa, mas ensurdecedora: meus ativos estão protegidos de decisões políticas externas?
Essa pergunta, só por existir, já muda fluxo de capital.
3) Os números já comprovam a diversificação
Dados do próprio Tesouro dos EUA mostram que, em novembro de 2025, o Japão detinha cerca de US$ 1,202 trilhão em títulos públicos americanos e a China cerca de US$ 682,6 bilhões. O serviço de pesquisa do Congresso americano continua destacando Japão e China como grandes detentores históricos entre estrangeiros, um lembrete de que mudanças marginais nesses portfólios têm efeito relevante no mercado global.
O que importa é menos o número absoluto e mais a mensagem: há rebalanceamentos graduais, com destaque para queda das posições chinesas, e debate crescente sobre concentração de reservas e exposição a risco geopolítico.
Isso não é colapso do dólar nem fim do Tesouro americano. É perda marginal de aura e, em finanças globais, perda marginal de aura desloca trilhões na margem.
4) O redesenho das rotas comerciais (o mundo olhando para os lados)
Tarifas e pressões bilaterais empurram países a procurar alternativas entre si. Quando o custo de negociar com o centro aumenta (seja por taxação, seja por incerteza) cresce incentivo para acordos regionais, complementares e diversificação de parceiros.
Nesse tabuleiro, o Mercosul voltou ao radar de jeito difícil de se imaginar até bem recentemente. A União Europeia avançou formalmente com o acordo UE-Mercosul: em 9 de janeiro de 2026, o Conselho autorizou a assinatura do acordo de parceria e do acordo comercial interino; e a assinatura ocorreu em 17 de janeiro de 2026, em cerimônia no Paraguai. No Brasil, o governo federal encaminhou, em 2 de fevereiro de 2026, o acordo comercial provisório para que possa ser referendado pelo Congresso.
Nada disso significa vitória automática. Há etapas, disputas internas e custos políticos. Há, inclusive, resistência e movimentos de atraso na tramitação europeia, com debates sobre cláusulas e legalidade, o que pode empurrar a ratificação por mais tempo.
Mas significa algo fundamental: em mundo que busca rotas alternativas, o Brasil deixa de ser apenas mercado interno grande e volta a ser peça de estratégia comercial.
Vale notar aspecto que reforça a tese central: o próprio debate público europeu tem associado o acordo a agenda de diversificação estratégica, inclusive para reduzir dependências num contexto de tensões com os EUA. Essa leitura aparece de forma explícita em coberturas que relacionam o impulso ao acordo com o momento geopolítico e comercial atual.
A reorganização não está ocorrendo apenas na Europa. O próprio Brasil tem sinalizado mais abertura para discutir arranjos comerciais envolvendo China e Mercosul (algo que, até pouco tempo, era politicamente mais difícil) num contexto explicitamente influenciado por realinhamentos globais de comércio e tarifas americanas.
Ao mesmo tempo, movimentos bilaterais (como entendimentos entre EUA e Argentina) geram tensões e questionamentos dentro do Mercosul sobre limites e regras do bloco, isto é, o tema comércio e alinhamentos saiu da teoria e voltou ao centro da política regional.
5) E o Brasil? Confiança relativa pode virar ativo
É aqui que turbulência global pode se tornar oportunidade brasileira.
O Brasil não precisa se transformar em novo centro financeiro do planeta para ganhar. Basta ser (no comparativo) destino com instituições funcionais, regras razoavelmente estáveis, ativos baratos em termos relativos, moeda com retorno atrativo (o chamado carry, que é a vantagem de juros altos) e, principalmente, capacidade de fornecer bens e energia ao mundo.
O mercado já dá sinais dessa leitura. Em 2026, o Ibovespa vem registrando máximas e forte entrada de capital externo. Só em janeiro de 2026, o saldo líquido de recursos estrangeiros na B3 somou cerca de R$ 26,31 bilhões, superando o acumulado de todo 2025, segundo levantamento publicado pela B3 (antiga Bovespa).
No câmbio, o real também reflete esse ambiente: a cotação dólar contra real em 10 de fevereiro de 2026 aparece em torno de 5,19 a 5,20, conforme séries e provedores de mercado.
Há base macro para esse movimento: inflação ainda dentro da banda e juros altos (Selic em 15%), com expectativa de início de afrouxamento monetário, o que ajuda a explicar parte do apetite por Brasil, tanto via renda fixa quanto via rotação para bolsa.
No lado estrutural do capital, o investimento direto estrangeiro (aquele investimento de longo prazo em projetos produtivos, não apenas especulação financeira) segue relevante: em 2025, o déficit em conta corrente foi amplamente coberto por esse tipo de investimento em proporção do PIB, sinal de que, apesar da volatilidade, há capital de longo prazo apostando no país.
Em português claro: num mundo em que confiança absoluta diminui, confiança relativa vale ouro. E o Brasil, por contraste, volta a parecer normal, e normalidade virou ativo escasso.
6) O paradoxo perigoso: o Brasil atrai capital apesar de si mesmo
Aqui reside o perigo e o paradoxo. O Brasil está atraindo capital apesar de o dever de casa não ter sido feito.
Enquanto o dinheiro entra, a fotografia fiscal continua preocupante. Ao mesmo tempo que o mercado acionário bate recordes, o setor público consolidado registrou em 2025 déficit primário de R$ 55,0 bilhões (0,43% do PIB); o governo central, déficit de R$ 58,7 bilhões (0,46% do PIB).
Estamos sendo beneficiados pela falta de opções melhores no mundo, e não necessariamente pela nossa excelência interna. O investidor global está comprando o Brasil por estar barato, não por ser eficiente.
O Brasil está sendo observado apesar de não ter concluído o dever de casa. Isso deveria funcionar como alerta, não como validação. Se com ruído interno já existe tração, com previsibilidade doméstica a tração vira tendência estrutural.
Fica a provocação: se o Brasil já está atraindo capital fazendo o dever de casa pela metade, o que aconteceria se fizéssemos o trabalho completo? Se, ao invés de apenas aumentar impostos, oferecêssemos segurança jurídica e corte de gastos ineficientes? A resposta é que os resultados deixariam de ser pontuais para serem estruturais.
7) Oportunidades não óbvias (e valiosas)
A imprensa cobre o problema (tarifas, choques diplomáticos, sanções). A oportunidade costuma ser menos manchete, porque é silenciosa. Algumas frentes em que o Brasil pode ganhar, sem precisar de milagres:
- a) O Brasil como fornecedor de estabilidade (alimentos, commodities minerais, celulose, madeira, petróleo)
Quando cadeias globais se fragmentam, países priorizam segurança de abastecimento. O Brasil tem escala em agro, energia e minerais. A oportunidade não é exportar mais a qualquer custo, mas exportar com contratos mais longos, padrões claros e agregação de valor onde for possível.
- b) A reprecificação de riscos globais (jurídico e político)
Se parte do mundo passa a temer jurisdição imprevisível e sanção como arma, cresce valorização de ambientes onde contratos são executáveis e separação institucional é minimamente respeitada. Aqui, o Brasil pode ganhar se fizer o básico bem feito: previsibilidade regulatória, segurança jurídica e respeito a regras do jogo.
- c) Acordos e preferências comerciais como vantagem competitiva
O avanço do acordo da União Europeia com o Mercosul (ainda que com etapas pela frente) muda expectativas de médio prazo, inclusive de investimento produtivo em setores exportadores e cadeias integradas.
- d) Mudança de portfólio (emergentes entram no foco, inclusive o Brasil)
Quando investidores globais reduzem concentração em EUA, precisam de mercados grandes o suficiente para absorver fluxo sem travar. A B3 é uma das poucas praças emergentes com liquidez e diversidade setorial para isso, e os dados recentes de fluxo sugerem esse movimento na prática.
- e) Transformar fluxo em fábricas (O salto de qualidade que o Brasil precisa)
Aqui mora a diferença entre euforia e desenvolvimento.
Entrada de recursos em bolsa e renda fixa é importante, mas pode ser volátil. O ganho duradouro vem quando percepção positiva se transforma em investimento em infraestrutura, projetos de energia e logística, cadeias industriais que buscam diversificação regional e financiamento de produtividade (tecnologia, educação, eficiência regulatória).
Essa transição (do capital nervoso para o capital paciente) depende menos do mundo e mais do Brasil.
8) A memória incômoda dos anos 2000: o risco do voo de galinha
A história nos oferece espelho retrovisor doloroso e alerta didático. Nos anos 2000, o Brasil viveu cenário semelhante, guardadas as devidas proporções. Surfamos onda de commodities impulsionada pelo apetite voraz da China.
Entre 2002 e 2007, o superávit comercial brasileiro saiu de US$ 13 bilhões para US$ 40 bilhões, com pico de US$ 46 bilhões em 2006. A relação com a China se tornou central, mas a pauta exportadora permaneceu concentrada em minério de ferro e soja. Os preços de commodities atingiram pico por volta do início de 2011 e depois arrefeceram, com impactos relevantes para economias exportadoras.
Foram momentos de bonança. No entanto, falhamos em converter aquela bonança passageira em reformas estruturantes. Acreditamos que voo de galinha era voo de cruzeiro. Naquela janela, colhemos resultados, mas não consolidamos produtividade, infraestrutura, ambiente de negócios, abertura comercial inteligente, qualidade do gasto público e estabilidade regulatória.
Quando a China desacelerou e o ciclo passou, os ganhos evaporaram, pois não havíamos construído alicerces, apenas pintado a fachada. Quando vento externo diminuiu, ficou evidente que parte do desempenho era cíclico, não estrutural.
O problema não foi ter aproveitado a onda. O problema foi não ter convertido a onda em estrutura. Foi momento muito bom, e seus efeitos deixaram de existir quando o momento passou.
Não basta aproveitar a onda. É preciso construir o barco.
9) O que diferencia a atual oportunidade (e a torna mais perigosa)
Talvez estejamos começando a ver momento parecido novamente, não idêntico, mas comparável no sentido de ventos externos empurrando o barco. A diferença é que agora sabemos como isso termina quando o país confunde sorte com estratégia.
A oportunidade atual nasce menos de boom clássico de commodities e mais de reorganização de fluxos motivada por instabilidade geopolítica e comercial.
Isso difere porque não depende só de preço internacional, mas de confiança relativa e diversificação. É mais perigoso porque confiança se perde rápido se o país vira sinônimo de surpresa tributária, insegurança regulatória ou incapacidade de cumprir regras fiscais.
O Brasil está atraindo atenção “apesar de”. Para transformar atenção em ciclo sustentável, precisa atrair “por causa de”.
10) Para transformar a janela em estrada, necessário previsibilidade doméstica
Aqui vai a parte menos sedutora e mais decisiva.
O Brasil só captura essa oportunidade se parar de sabotá-la internamente. Volatilidade externa pode nos favorecer na margem, mas consolidação depende do que controlamos: âncora fiscal crível (não perfeita, mas crível); regulação estável e simples (menos surpresa, menos exceção); ambiente de negócios com custo Brasil em queda (logística, energia, tributação operacional); agenda externa pragmática, abrindo mercados sem transformar comércio em guerra cultural; e instituições previsíveis, porque capital de longo prazo compra regra, não discurso.
Caso contrário, a entrada de recursos vira só ciclo curto de arbitragem de juros (o chamado carry trade, quando o investidor entra apenas para aproveitar juros altos e sai rapidamente) e euforia de bolsa e, como sempre, o vento muda.
10.1) O risco do ajuste só pela receita (e o custo da surpresa tributária)
Quando o mundo está carente de previsibilidade, o investidor deixa de tolerar vício brasileiro: combater déficit com remendos concentrados em arrecadação (novos tributos, novas incidências, ajustes pontuais) enquanto a discussão sobre trajetória de despesas obrigatórias anda em ritmo mais lento.
Isso não é tese abstrata. Em 2025, o governo anunciou contenções no orçamento e buscou medidas de arrecadação (como mudanças no IOF) para cumprir as regras fiscais. A reação política foi tão forte que o Congresso acabou derrubando o aumento do IOF, evidenciando fragilidade de soluções que dependem de atalhos e de sustentação política instável.
O mercado não foge apenas de imposto alto. Ele foge de imposto imprevisível, de regra meio atabalhoada, de mudança de interpretação sem transição, de medidas anunciadas e recuadas, de um Estado que parece sempre buscar a próxima base tributável antes de encarar o coração do problema: o crescimento inercial de despesas.
10.2) Arcabouço fiscal e a matemática de 2027: o tempo não está jogando a favor
Há, ainda, risco de cronograma. A ministra do Planejamento alertou que o arcabouço fiscal pode se tornar insustentável por volta de 2027 sem ajustes estruturais, dado o crescimento de despesas obrigatórias e pressões adicionais sobre o orçamento.
O detalhe mais importante aqui não é o debate político, mas a consequência econômica: quando o mercado percebe que a regra fiscal não fecha adiante, ele cobra mais prêmio de risco hoje. E prêmio de risco hoje significa custo de capital mais alto para investimento produtivo, exatamente o oposto do que o Brasil precisa para transformar janela em estrada.
10.3) Reforma tributária: Uma oportunidade, desde que transição não traga surpresas
A reforma tributária do consumo tem potencial de simplificação e melhora do ambiente de negócios no médio prazo. Mas, no curto prazo, a execução é tudo.
A Receita Federal já orientou que, a partir de 1º de janeiro de 2026, contribuintes devem emitir documentos fiscais eletrônicos com destaque de CBS e IBS e cumprir novas obrigações acessórias conforme notas técnicas e layouts. O marco constitucional desse novo modelo é a EC 132/2023.
Num mundo em que previsibilidade virou prêmio, a transição tributária brasileira não pode ser labirinto de exceções, cronogramas confusos e insegurança interpretativa. Se o Brasil quer atrair investimento produtivo, precisa fazer da implementação da reforma exemplo de estabilidade regulatória e não mais um capítulo do nosso histórico de complexidade.
10.4) O pacote completo do que precisa ser feito
Para que este momento não seja apenas soluço de euforia na bolsa ou arbitragem de juros de curto prazo, o Brasil precisa oferecer previsibilidade doméstica. O mundo está nos dando benefício da dúvida; precisamos retribuir com consistência.
- a) Âncora fiscal crível
Não se trata de prometer resultado primário, mas de convencer o mercado de que o resultado é alcançável sem gambiarras, sem pedaladas e sem depender exclusivamente de alta de tributos. O déficit primário consolidado de 2025 foi de 0,43% do PIB. Para caminhar para superávit sustentável, o eixo precisa incluir governança de despesa: revisão periódica de gastos, avaliação de políticas públicas, gatilhos automáticos e previsibilidade na execução orçamentária.
O investidor não exige austeridade eterna. Ele exige trajetória.
- b) Ajuste de despesa com inteligência
Quando despesas obrigatórias crescem mais rápido do que o permitido pelas regras, o espaço para investimento público e políticas com retorno de longo prazo encolhe. A discussão precisa sair do tabu e entrar no terreno da técnica: eficiência, focalização, eliminação de sobreposições, combate a fraudes e desenho sustentável de programas.
Em fevereiro de 2026, o ministro da Fazenda falou sobre repensar arquitetura de programas de assistência. A direção (racionalização) é mais importante que o formato.
- c) Segurança jurídica
Se o diferencial do Brasil frente aos EUA hoje é neutralidade, não podemos sabotar isso internamente com insegurança regulatória, decisões retroativas ou captura política de agências. O respeito aos contratos é o maior ativo que podemos vender agora.
Investimento produtivo corre atrás de risco governável. O Brasil precisa reduzir o custo da insegurança: menos litígio tributário, menos retroatividade, mais previsibilidade de agências, melhor desenho e cumprimento de contratos de concessão, e um Estado que trate regra como regra.
Segurança jurídica não gera manchete diária, mas muda custo de capital.
Conclusão: O mundo está mais caro em confiança e o Brasil pode vender confiança (se parar de queimá-la por dentro)
A instabilidade criada pela política externa e comercial americana não é apenas ruído; ela é fator de redistribuição de oportunidades. Ao elevar o prêmio da previsibilidade, o mundo passa a pagar mais por normalidade: por parceiro confiável, por jurisdição minimamente estável, por fornecedor seguro.
O Brasil pode ser beneficiado, sim, e os sinais de mercado (fluxo estrangeiro, câmbio, bolsa, interesse em acordos) sugerem que essa atenção já começou.
Mas há um detalhe: o Brasil não vai ganhar por mérito alheio. Vai ganhar se entender que, num planeta em que a confiança está em falta, previsibilidade doméstica não é virtude moral, é vantagem competitiva.
E há segundo detalhe, ainda mais importante: não basta atrair capital. É preciso atrair o capital certo e criar o ambiente para que ele vire investimento produtivo e duradouro. Caso contrário, a história se repete: um pico, alguns recordes, manchetes, e depois o retorno ao nosso velho normal.
O mercado global está nos dando benefício da dúvida e benefício do fluxo. Mas essa sorte tem prazo de validade. Hoje, o destino nos oferece segunda chance. A janela está aberta, mas ela se fechará se o país continuar oferecendo surpresas tributárias e fiscais.
Nos anos 2000, o Brasil surfou a onda mas não consolidou o suficiente para quando a maré baixasse. Se estamos diante de novo momento semelhante, a diferença decisiva é: agora sabemos o final do filme quando o país não faz a lição de casa.
Desta vez, o Brasil precisa fazer diferente: transformar janela em estrada. A oportunidade só vira resultado duradouro se o Brasil escolher ser destino de confiança não apenas por comparação, mas por mérito: estabilidade fiscal crível, previsibilidade tributária, consistência regulatória e segurança jurídica.
O mundo está precificando previsibilidade. O Brasil pode vender previsibilidade, desde que pare de consumi-la internamente.
Este texto é artigo de opinião e não constitui recomendação de investimento.
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Dênerson Rosa
Advogado, 28 anos de experiência na área tributária, pós graduado em Direito Tributário e Processo Tributário, ex-auditor fiscal de tributos do Estado de Goiás.
___
Notícias regionais de empresas, investimentos e de carreira, sem custo e sem excesso de conteúdo. Selecionadas para a sua empresa. Participe da COMUNIDADE STG News e Leitura Estratégica: https://bit.ly/STGNewsLeituraEstrategica
