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Entre técnica, criatividade e memória afetiva, chefs de Brasília celebram a arte de cozinhar

Foto: iStock

Cozinhar é um exercício de precisão, sensibilidade e criatividade. Por trás de cada prato, há escolhas, técnicas, referências culturais e histórias que se revelam à mesa. Celebrado em 20 de outubro, o Dia Internacional do Chef de Cozinha é uma oportunidade de reconhecer os profissionais que fazem da gastronomia muito mais do que o ato de alimentar: uma expressão de identidade, memória e hospitalidade. Criada em 2004 por iniciativa de Bill Gallagher, então presidente da Worldchefs, a data propõe valorizar a profissão e destacar a contribuição dos chefs para a cultura alimentar.

Em Brasília, cidade marcada pelo encontro de tradições de diferentes regiões do país e influências internacionais, essa diversidade ganha forma em cozinhas que apostam na experimentação, na panificação artesanal, na tradição regional e no cuidado com cada etapa do preparo.

À frente de quatro casas com propostas distintas, Gabriel Blas (Bla’s Cozinha Criativa), Henrique Uchôa (Madame Brioche), Romão Olinda (Olinda Bar e Restaurante) e Thiago Leopoldino (Los Santos Pizza e Pão) ajudam a compor esse cenário. Suas trajetórias mostram que não existe um único caminho para a cozinha profissional, mas um elemento em comum: a busca por imprimir personalidade ao que chega ao prato.

Gabriel Blas: a cozinha como laboratório criativo

A trajetória de Gabriel Blas é marcada por uma mudança de rumo profissional e pela disposição de transformar curiosidade em ofício. Nascido em Brasília e com raízes piauienses, ele é formado em Ciência da Computação e chegou a trabalhar na área de tecnologia antes de decidir investir na gastronomia. Durante o curso, teve uma experiência importante como cozinheiro no gabinete do ministro da Educação, onde aprofundou o aprendizado prático. Depois de atuar em eventos e jantares como freelancer, decidiu construir o próprio caminho.

O resultado foi o Bla’s, na Asa Norte, empreendimento que começou como uma lanchonete e evoluiu para um restaurante de cozinha contemporânea e autoral. A casa passou a investir em pratos elaborados, entradas, sobremesas e combinações que transitam por diferentes referências gastronômicas, mantendo espaço para novidades no cardápio.

A proposta de experimentar e surpreender faz parte da identidade do chef. Ao definir a essência do restaurante, Gabriel resume a filosofia que orienta seu trabalho: “A nossa ideia sempre foi ser um laboratório criativo, poder oferecer aos clientes o melhor da gastronomia e ainda nos desafiarmos a estar sempre inovando”, afirma.

A declaração traduz uma cozinha que valoriza tanto o repertório técnico quanto a liberdade de criação. No Bla’s, a inovação não se limita à apresentação dos pratos: ela está também na combinação de ingredientes, na renovação das receitas e na procura constante por novas possibilidades de sabor.

Chef Gabriel Blas_divulgação

Henrique Uchôa: o tempo e a técnica por trás do pão

Na Madame Brioche, Henrique Uchôa encontra na panificação artesanal o espaço para unir técnica, pesquisa e criatividade. Antes de se dedicar integralmente à gastronomia, ele trilhou uma carreira na advocacia e passou por restaurantes de alto padrão em Brasília e em outras cidades, além de experiências internacionais. Durante a pandemia, aprofundou seus conhecimentos em panificação no Mocotó, em São Paulo, ao lado do chef Rodrigo Oliveira:  vivência decisiva para sua aproximação com o universo das massas.

Na padaria artesanal da Asa Norte, sua atuação se conecta a uma proposta que valoriza os processos de fermentação, a qualidade dos ingredientes e o cuidado com produtos como brioches, croissants, focaccias e pães de inspiração francesa.

“Na panificação, o resultado depende de um trabalho que nem sempre se vê: o controle da temperatura, o desenvolvimento do glúten, a hidratação da massa e o tempo necessário para que fermentação e textura alcancem o ponto desejado. É um ofício que exige paciência e precisão, mas que também abre espaço para a experimentação”, destaca Henrique.

A trajetória de Henrique evidencia justamente essa combinação. Ao migrar de uma profissão para outra, ele construiu uma identidade que aproxima a disciplina da técnica à liberdade de criar, mostrando que um pão artesanal pode carregar tanto a tradição de uma receita quanto a assinatura de quem o prepara.

Henrique Ucho – Divulgação

Romão Olinda: tradição nordestina servida à mesa

A história de Romão Olinda está ligada à herança familiar e à preservação dos sabores nordestinos no Distrito Federal. Inspirado pelo pai, Romão Gomes de Olinda, ele começou sua trajetória na gastronomia ainda adolescente, aos 16 anos. Aos 19, passou a assumir responsabilidades no restaurante da família, dando continuidade a um trabalho que atravessa gerações.

O empreendimento tem raízes em 1987, quando a família começou com um pequeno negócio. Ao longo dos anos, a operação cresceu e consolidou sua presença na capital, com unidades na Asa Sul e em Taguatinga. Mesmo tendo iniciado uma graduação em Administração, Romão optou por seguir sua vocação na cozinha, dedicando-se à continuidade e ao desenvolvimento do negócio familiar.

No Olinda Bar e Restaurante, a culinária regional aparece como expressão de pertencimento. Ingredientes, receitas e combinações remetem à cozinha nordestina e à memória das refeições compartilhadas, em uma proposta que procura manter viva a tradição sem deixar de dialogar com o presente.

Ao recordar a influência paterna, o chef destaca a dimensão afetiva de seu ofício: “Meu pai sempre foi meu mestre. Foi com ele que aprendi a respeitar os ingredientes, a cozinhar com o coração e, principalmente, a contar histórias com comida”, comenta Romão.

A fala revela uma compreensão da gastronomia que ultrapassa a técnica. Para Romão, cozinhar também significa preservar lembranças, transmitir conhecimentos e manter uma história familiar viva em cada serviço. É nesse encontro entre herança e continuidade que o Olinda constrói sua identidade.

Chef Romão Olinda – Arquivo Pessoal

Thiago Leopoldino: o protagonismo das massas e da fermentação

À frente da Los Santos Pizza e Pão, Thiago Leopoldino dedica seu trabalho à versatilidade do trigo e ao potencial das massas artesanais. A casa, localizada no Setor de Rádio e TV Norte, combina pizzaria e padaria, reunindo pizzas de longa fermentação, pães artesanais e produtos de inspiração francesa, como croissants e preparações folhadas.

O trabalho do chef parte de um princípio essencial da panificação: o tempo também é ingrediente. Na Los Santos, as massas de pizza passam por processos de fermentação e maturação prolongados, enquanto a linha de pães explora técnicas que privilegiam textura, aroma e desenvolvimento de sabor. A atenção aos processos se estende à seleção das farinhas e à construção de receitas que valorizam tanto a simplicidade quanto a sofisticação.

“O trigo é a base de tudo o que fazemos aqui. Ele representa história, tradição e versatilidade, e nos permite criar produtos que vão desde o simples até o sofisticado, sempre com a mesma essência”, diz Thiago.

A declaração sintetiza a proposta da Los Santos: respeitar a matéria-prima e os fundamentos da panificação, sem abrir mão de novas combinações. Em suas mãos, pizza e pão deixam de ser apenas preparações cotidianas para revelar o resultado de uma cadeia de decisões técnicas, do desenvolvimento da massa ao momento em que ela chega ao forno.

Quatro trajetórias, uma mesma paixão

As histórias de Gabriel Blas, Henrique Uchôa, Romão Olinda e Thiago Leopoldino mostram diferentes maneiras de compreender a cozinha. Há quem encontre na criação autoral um campo para experimentar; quem descubra na panificação o valor do tempo e da precisão; quem transforme a herança familiar em patrimônio gastronômico; e quem explore a versatilidade de um ingrediente milenar para reinventar preparações conhecidas.

Em comum, os quatro profissionais compartilham o compromisso de fazer da comida uma experiência que envolve mais do que o paladar. Cada prato, pão ou pizza carrega escolhas, referências e uma visão particular da gastronomia.

“Ser chef é estar em constante movimento, é entender que a criatividade não tem limites e que cada prato é uma oportunidade de surpreender. Cozinhar é transformar ideias, ingredientes e experiências em algo capaz de despertar emoções. É isso que me motiva a continuar criando e buscando o novo todos os dias”, enfatiza Gabriel.

“A cozinha é um exercício diário de dedicação e descoberta. Trabalhar com massas nos ensina que cada detalhe importa, do ingrediente ao tempo de fermentação. Meu objetivo é respeitar a essência de cada produto e, ao mesmo tempo, explorar novas possibilidades, oferecendo experiências que valorizem o sabor e o trabalho artesanal”, completa Thiago.

Neste 20 de outubro, o Dia Internacional do Chef de Cozinha celebra justamente essa pluralidade. Em Brasília, uma cidade construída pelo encontro de culturas, a cozinha se reafirma como território de criatividade e memória – e os chefs, como intérpretes de histórias que ganham sentido à mesa.

“Cozinhar é manter viva uma história. Carrego comigo os ensinamentos da minha família e o compromisso de preservar os sabores que fazem parte da nossa identidade. Para mim, a gastronomia tem esse poder de reunir gerações, despertar lembranças e fazer com que as pessoas se sintam em casa à mesa”, celebra Romão.

“Para mim, cozinhar é encontrar uma forma de proporcionar bons momentos às pessoas. Quero que cada produto que sai da nossa cozinha seja feito com qualidade, cuidado e sabor, mas que também desperte aquela sensação de satisfação de comer algo realmente bom. No fim, o mais gratificante é saber que aquilo que fazemos com dedicação chega à mesa e faz a diferença no dia de alguém”, conclui Henrique.

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