A mandioca é um alimento ancestral, nativo da América do Sul e muito conhecido no Brasil por ser uma das bases alimentar dos indígenas brasileiros. O País está entre os principais produtores do mundo desta raiz. Segundo a Embrapa Mandioca e Fruticultura, a produção brasileira pode chegar a 12% de toda a mandioca consumida no planeta. De acordo com o Senar do Amapá, a raiz é uma base alimentar e econômica fundamental para agricultura familiar e do agronegócio brasileiro.
Feita as apresentações, a mandioca, o aipim e a macaxeira, hoje são responsáveis pelos grandes resultados de duas cooperativas goianas, a mais antiga Cooperativa de Agricultura Familiar da Região do Cará (Cooperabs) e a mais jovem, a Cooperativa Mista da Agricultura Familiar de Novo Gama (Coopgam). É a partir dessa raiz antiga, que essas cooperativas estão aplicando tecnologias de produção para transformar a vida dos cooperados e de quem vive na região onde essas cooperativas estão situadas.
Essa construção de prosperidade não acontece do dia para a noite. Desde a sua fundação e registro em 2005, a Cooperativa de Agricultura Familiar da Região do Cará (Cooperabs), vem em uma crescente de desenvolvimento. Houve períodos de estagnação, mas foram poucos e superados. Segundo o presidente da Cooperabs, José Atair da Silva Neto, a produção começou de mandioca de forma artesanal em 1956, e por consequência de polvilho. Na época do registro eram 44 famílias cooperadas, hoje são 128 famílias cooperadas. No último mês de setembro, a cooperativa recebeu o selo de Indicação Geográfica (IG), pelo polvilho, concedido Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), órgão do Ministério do Desenvolvimento da Indústria, Comércio e Serviços. Foi o primeiro selo dado para a produção de polvilho no Brasil e apenas o açafrão do município de Mara Rosa, ostenta o mesmo selo em Goiás.
Se no início, a produção artesanal foi conduzida principalmente pelas mulheres, pois o polvilho era tido como uma produção fácil, hoje a família inteira trabalha com o mesmo o objetivo e foi assim que a produção ganhou escala. A concorrência entre os produtores antes da cooperativa era grande e predatória. “Muitas vezes o produtor concorria com o primo, com o vizinho e o preço só caía, ninguém conseguia ter lucro, apenas quatro ou cinco produtores conseguiam ir para Goiânia e vender o polvilho que produzia. Muita gente teve que vender a terra”, explica José Neto. Assim entre o final de 1990 até o início dos anos 2000, a produção de polvilho quase acabou. Porém, o avô de José Neto, que já faleceu, Antônio Batista Etelvina tinha um senso de comunidade muito grande, promovia mutirões, reformas de casas. Foi dele a iniciativa de trazer uma palestra sobre cooperativismo na cidade, um modelo novo de empreender, e tudo começou no prédio de uma antiga escola. “Quando se falou em montar a cooperativa o pessoal acreditou e voltaram a produzir polvilho. Foi bom, mas foi difícil no começo porque as pessoas não conheciam bem o modelo cooperativo. Desde então houve sim uma mudança econômica significativa, mas acredito que o impacto social foi muito maior”, descreve o presidente da Cooperabs.
Ele conta que antes da cooperativa havia duas pessoas na região que tinham CNH, o que dificultava escoar a parca produção de polvilho. “Nem dava pra sair do Cará, ninguém nunca tinha feito faculdade. O País melhorou, mas eu acredito que a cooperativa foi o propulsor disso. Hoje todo mundo tem carteira de motorista, quase 30 cooperados fizeram e estão na faculdade. Meu pai é analfabeto e eu sou graduado. Ninguém ficou rico, mas todo mundo vive bem com dignidade e a cooperativa permitiu que as pessoas continuem na zona rural”, completa.
O produtor de mandioca e polvilho Ediones Marcos de Campos é um desses exemplos. Começou a plantar mandioca por volta dos 10 anos de idade, em Bela Vista de Goiás, na região do Cará. Em 2005, junto com o pai se tornou um dos fundadores da Cooperabs. Entusiasta do cooperativismo, ele conta que foi com a mandioca que ele e a esposa conseguiram criar os filhos, aumentar o tamanho da própria terra e terem a vida equilibrada que possuem hoje. Ele explica que é visível o crescimento do cooperado tanto financeiramente como profissionalmente. “Logo após a fundação da Cooperabs, a maioria dos produtores não tinha oportunidades, apenas uns cinco ou seis se sobressaíam, pois eram os únicos que tinha carro bom, casa boa e condições de plantar e vender a produção. A cooperativa trouxe oportunidades iguais para todos. Muitos, antes da Cooperabs, desistiram de plantar mandioca, foram embora da do campo por falta de oportunidade. Ainda não há nenhum grande produtor aqui, mas juntos somos fortes e temos poder de negociação por meio da cooperativa”, explica Ediones. Nascido em Bela Vista, o produtor diz que conhece bem todo os cantos da cidade e nenhum deles é tão desenvolvido quanto a região do Cará, tanto no aspecto financeiro, quanto humano. “Aqui os cooperados, cresceram, criaram seus filhos e netos, é uma região próspera. A partir da segunda e terceira geração de produtores de mandioca saíram para estudar, se formaram e quase todos voltaram para trabalhar, e crescer junto com a comunidade cooperativista”, enfatiza.
Área delimitada
Assim como o Queijo Canastra, o espumante Champagne e outros tantos produtos que são reconhecidos pela região que são fabricados, a partir do selo de Indicação Geográfica, o polvilho do Cará é único, reconhecido nacionalmente pela região que é produzido e pelo padrão de qualidade único adotado na produção. Qualquer outro que seja produzido fora do Cará em Bela Vista de Goiás, não pode ser vendido como polvilho do Cará e, é considerado um produto falsificado. “Estamos muito animados com essa conquista do IG e vamos explorar este selo. Há tempos outros países como Portugal, França, Espanha, tem milhares de IG, esse reconhecimento é bom pra todo mundo e o Brasil ainda está engatinhando. Nosso desafio é continuar esse legado”, explica José Neto.
Além do polvilho, a Cooperabs produz farinha de mandioca torrada, farinha temperada, mandioca ralada para mané pelado, mandioca congelada e a expectativa para breve é produzir peta para ser comercializada. Além de expandir as vendas dentro e fora de Goiás. A previsão de crescimento para este ano de 2026, é de um incremento de 8% na produção. Em 2025, a produção consolidada foi de 600 toneladas farinha, 720 toneladas polvilho, 700 hectares mandioca.
Uma cooperativa gerenciada por mulheres
O cultivo da mandioca deixou de ser apenas uma atividade de subsistência e se consolidou como uma cadeia produtiva organizada, sustentável e economicamente viável para pequenos agricultores de Luziânia, no Entorno do Distrito Federal. À frente desse movimento está a Cooperativa dos Produtores de Mandioca (Coopgam), que nos últimos anos estruturou sua operação, conquistou alvará sanitário para sua agroindústria e expandiu seu quadro de associados de 20 para quase 90 cooperados ativos. Na presidência da Coopgam, está Elvira Maciel e na diretoria Social, a cooperada Marcilene Mariano.
A profissionalização da cooperativa superou um histórico de incertezas comerciais na região, onde a ausência de canais organizados de venda gerava disputa de preços e desmotivação entre os produtores locais. Hoje, com a unidade industrial apta a processar e embalar o alimento, a produção ganha valor agregado e escoamento garantido.
O principal vetor dessa virada comercial foi o acesso às compras públicas de alimentos, em especial ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). A organização em cooperativa permitiu que agricultores familiares atendessem às exigências de regularidade e volume mensal desses programas — algo inviável individualmente.
Além da estabilidade financeira, o modelo trouxe impacto direto na estrutura social do campo. O acesso às políticas públicas tem incentivado a participação feminina na gestão e no trabalho rural, elemento fundamental para fixar as famílias na terra e estimular a sucessão familiar. Jovens que antes migravam compulsoriamente para centros urbanos agora encontram viabilidade econômica para permanecer no meio rural.
A base técnica dessa expansão nasceu de uma parceria estratégica entre o Sebrae, por meio do programa ALI Rural, e a Embrapa Cerrados. A introdução de projetos-piloto com a variedade de mandioca IAC 576-70 — popularmente conhecida como “Japonesinha” — comprovou a aptidão da cultura para o solo com cascalho característico da região, até então visto por muitos como impróprio.
A variedade se destacou pela alta resistência a bacterioses, facilidade de manejo e expressivo rendimento agronômico. Enquanto lavouras convencionais demandam ciclos mais longos, a Japonesinha atinge produtividade média de até 30 toneladas por hectare no regime de sequeiro (dependente do período chuvoso), com colheita entre 10 e 12 meses — ciclo que pode ser encurtado e ainda mais otimizado caso haja irrigação contínua.
O aproveitamento integral da planta também reforça a economia circular nas propriedades: além da raiz comercializada para consumo e farináceos, as ramas e a parte aérea são reaproveitadas na alimentação animal (silagem) e em processos de compostagem e adubação orgânica. Com volume de entrega previsível e mercado institucional assegurado, a cooperativa agora direciona esforços para a melhoria contínua da qualidade do produto e a expansão sustentável das áreas plantadas, consolidando Luziânia como um polo emergente de mandiocultura no Centro-Oeste.
___
Notícias regionais de empresas, investimentos e de carreira, sem custo e sem excesso de conteúdo. Selecionadas para a sua empresa. Participe da COMUNIDADE STG News e Leitura Estratégica: https://bit.ly/STGNewsLeituraEstrategica