No Brasil, desde o Plano Real, pratica-se uma das maiores taxas de juros reais do mundo. Foi assim nos governos Fernando Henrique Cardoso, Lula 1 e 2, Dilma, Temer, Bolsonaro, e não está sendo diferente no governo Lula 3. Embora a independência formal do Banco Central seja recente, a instituição sempre teve autonomia prática para gerir a política monetária sem grandes interferências governamentais.
Um grupo restrito de cerca de 100 representantes de bancos e fundos de investimento determina, na prática, a taxa de juros futura, baseando-se em seus “famosos modelos macroeconômicos”. Por que eles determinam? Porque o Banco Central pesquisa semanalmente (via Boletim Focus) a previsão de inflação desses agentes para os meses e anos seguintes. De posse dessas expectativas do mercado financeiro, o BC toma a decisão de qual taxa de juros aplicar à economia. Constata-se aí uma inter-relação questionável do ponto de vista ético e estrutural: por que empresas do setor produtivo não participam com o mesmo peso dessa pesquisa, já que muitas também possuem robustos modelos macroeconômicos?
Tudo começa com a meta de inflação. No Brasil, a meta atual é de 3% ao ano, com um intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. Para efeito de comparação, a meta nos Estados Unidos e na Zona do Euro é de 2% ao ano, sem intervalo formal. O Brasil conviveu por décadas com hiperinflação; o Plano Real conseguiu trazê-la para a casa de um dígito, mas a média da inflação brasileira nos últimos 20 anos (2005-2024) foi de 5,59% ao ano. Diante desse cenário, a questão central é: por que a meta de inflação do Brasil é tão próxima à de países desenvolvidos?
A resposta teórica seria a existência da margem de tolerância (que permite a inflação chegar a 4,5%). Contudo, o que deveria flexibilizar a política monetária não funciona na prática. O intervalo de tolerância é ignorado porque o mercado financeiro exige que o Banco Central persiga implacavelmente o centro da meta (3%), forçando o uso contínuo de juros estratosféricos.
Para combater uma inflação de 4,14%, o Brasil aplica uma taxa de juros de 14,50% ao ano. Já os Estados Unidos, para combater uma inflação de 3,80%, mantêm os juros entre 3,50% e 3,75%. A União Europeia, com inflação de 3,00%, aplica juros de 2,00%. O resultado é brutal: o Brasil ostenta uma das maiores taxas de juros reais do planeta (acima de 10%), enquanto os EUA operam com juro real praticamente zero e a Europa com juro real negativo.
O mercado financeiro exige do Brasil uma meta de inflação de Primeiro Mundo, mas impõe como remédio uma taxa de juros punitiva. Pior ainda: o Banco Central aplica esse mesmo remédio amargo para tratar inflação de oferta — como a gerada por choques nos preços do petróleo devido à guerra no Oriente Médio.
Interromper ou desacelerar o ciclo de cortes da Selic sob a justificativa de conflitos geopolíticos externos é desastroso para a economia real, empresas e famílias.

Marcos Freitas Pereira
Natural de São Paulo, acumula mais de 40 anos de experiência no mercado. Doutorando em Turismo, Mestre em Finanças e economista. Fundador e atual sócio da AM Investimentos e Participações que investe em clínicas médicas, turismo, gastronomia e lazer e entretenimento. Foi também fundador da WAM Brasil maior comercializadora de multipropriedade turismo imobiliário do mundo.
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