Mulheres cooperativistas superam obstáculos e ocupam cargos estratégicos

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Elvira Maciel, presidente da COOPGAM, Cooperativa Mista de Agricultura Familiar do Município do Novo Gama
Em Goiás, inúmeras mulheres encontram no cooperativismo uma oportunidade de se desenvolver, conquistar espaços de liderança e estratégia e, em troca, contribuir para um modelo de negócio mais democrático e igualitário. Essas líderes cooperativistas superaram obstáculos e diferentes desafios para chegar onde estão hoje: uma posição de destaque em suas cooperativas.Foi nesse contexto que o Dia da Mulher Cooperativista foi criado e passa a ser celebrado a partir deste ano, sempre no dia 15 de agosto. A data foi instituída pela Lei nº 24.451, de autoria do deputado estadual Eduardo Prado.

Ainda assim, é preciso reconhecer que há muito a avançar. O presidente do Sistema OCB/GO, Luís Alberto Pereira, entende que esse esforço para ocupar mais espaços de decisão nas cooperativas não pode parar. Pelo contrário, precisa ser acelerado.

“Reconhecemos que a participação feminina nos cargos de gestão está longe do ideal. A criação do nosso Comitê de Mulheres e a recente aprovação da Lei da Mulher Cooperativista, além da presença majoritária de mulheres no Conselho de Administração do SESCOOP/GO, são iniciativas positivas. Mas precisamos avançar mais, estimulando também nossas cooperativas a seguirem este caminho”, entende Luís Alberto Pereira.

Superação

Marcilene Mariano, da Cooperativa Mista de Agricultura Familiar de Novo Gama (Coopgam), é um bom exemplo de líder cooperativista feminina que precisou superar obstáculos para chegar em sua posição de destaque. Marcilene cresceu na zona rural, onde aprendeu a amar o campo e a fazer a primeira receita de doce: uma cocada ensinada por sua avó. Posteriormente, Marcilene se mudou para a cidade, formou-se em Direito e exerceu a profissão por 16 anos.

Marcilene Mariano, Diretora Social da COOPGAM, Cooperativa Mista de Agricultura Familiar do Município do Novo Gama.

No entanto, após duas gestações de risco, decidiu seguir a vontade que sempre teve de voltar ao campo. “Eu reuni minha família, meus pais, e comuniquei minha decisão.  Troquei o terno pela terra e fui em busca das minhas raízes. Fui viver e trabalhar em uma terra nua, sem água, sem luz, sem nenhuma infraestrutura, levando comigo somente um sonho: prosperar no campo”, conta Marcilene.

Inicialmente, formou um pomar e se especializou na produção de doces cristalizados, geleias e compotas, a partir da constituição da empresa Pé di Gostosura. Porém, seu grande desejo era cultivar mandioca, o que já fazia sem muita experiência. O cultivo atingiu outro patamar, ao se tornar cooperada na Coopgam.

“Minha vida se transformou.  Eu me apaixonei pelo cooperativismo ao mesmo tempo em que tive apoio e assistência técnica para implementar minha primeira lavoura de mandioca”, conta.

Marcilene se especializou em mandiocultura, fez vários cursos e decidiu transformar sua produção em uma linha inédita de produtos derivados de mandioca, como sorvete, palha italiana, mandiococada, um doce misto de mandioca e coco, entre outros. A cooperada recebeu diversos prêmios por seus trabalhos e é a atual diretora social da Coopgam.

Ela acredita que a diversidade é fundamental para uma boa liderança. “Para mim, ocupar esses espaços não significa apenas aumentar o número de mulheres, mas garantir que elas tenham voz, participação efetiva e igualdade de oportunidades. Quanto mais diversas forem as pessoas envolvidas nas decisões, mais representativo e forte será o cooperativismo”, disse.

Responsabilidade

No caso de Ana Cristina Alves, sua trajetória envolve a responsabilidade de reerguer uma cooperativa. Quando chegou à Cooperativa de Ensino de Quirinópolis (CEQ), a instituição tinha poucos alunos e várias dívidas acumuladas. Na época, Ana Cristina sabia pouco de cooperativismo, mas usou seus dez anos de gestão no setor público para colocar a CEQ em outro patamar.

“Acredito que a educação e o cooperativismo são uma construção coletiva. Foi uma trajetória de muito aprendizado. Aprendi que uma liderança cooperativista precisa ter visão, responsabilidade, coragem para tomar decisões difíceis e, principalmente, capacidade de ouvir e trabalhar junto com as pessoas”, afirma a presidente da CEQ, que oferece da Educação Infantil ao Ensino Médio.

Ana Cristina Alves dos Santos (ao centro), presidente da
Cooperativa de Ensino de Quirinópolis, e colaboradoras da instituição

Para ela, a liderança feminina promove muitas contribuições. “As mulheres trazem experiências, percepções e formas diferentes de analisar problemas e buscar soluções. Muitas vezes, desenvolvemos uma capacidade muito grande de conciliar diferentes demandas, ouvir as pessoas e perceber necessidades que poderiam passar despercebidas.”

Elvira Maciel, atual presidente da Coopgam, concorda. “Mulheres gestoras trazem cuidado, escuta, organização e visão de longo prazo. A gente une gestão com sensibilidade. Isso fortalece o coletivo e aproxima a cooperativa das famílias e da comunidade.”

Elvira trabalhou por mais de 20 anos em uma multinacional, mas entendeu que seu lugar era onde cresceu: no campo. Ali, ela encontrou a autonomia que buscava. “Cheguei na Coopgam vendo a oportunidade de crescer com meus próprios recursos e ampliar meu retorno. Depois que entrei, aprendi que cooperar é crescer junto. Aqui eu evoluí como profissional e como pessoa”, frisa.

Manutenção

Por vezes, as mulheres enfrentam não só desafios na hora de ocuparem espaços estratégicos, mas também na hora de mantê-los. Este foi o caso de Silvânia Laureano, fundadora e presidente da cooperativa de Reciclagem Cooperxixá, de Itapuranga. Silvânia precisou conciliar a maternidade, a vida pessoal e a responsabilidade de estar à frente de uma cooperativa.

“Nem sempre foi fácil. Houve momentos de cansaço, dúvidas e dificuldades, mas também muitos momentos de orgulho. Aprendi que ser mulher e mãe não diminui nossa capacidade de liderar. Pelo contrário, nos ensina diariamente a ter coragem, resiliência e responsabilidade”, afirma Silvânia.

Silvânia Laureano (esquerda), presidente da Cooperxixá, Cooperativa de Trabalho, Produção e Reciclagem de Itapuranga

Para ela, a cooperativa a levou para espaços e conhecimentos que nunca imaginou ocupar. “Hoje, olhando para essa trajetória, percebo que a cooperativa também me transformou. Eu ajudei a construir a Cooperxixá, mas a cooperativa também ajudou a construir a mulher e a líder que sou hoje”, reflete a dirigente.

Números

Atualmente, 768 mulheres ocupam cargos de gestão no cooperativismo goiano. As mulheres presidem 60 cooperativas em Goiás e 145 ocupam a vice-presidência. O ramo trabalho, produção de bens e serviços é o que possui maior participação delas na liderança: 73% dos dirigentes são mulheres.

A presença feminina na governança das cooperativas apresentou avanços relevantes, entre 2022 e 2026. O crescimento mais expressivo nesse período ocorreu nas presidências: o número de mulheres passou de 25 para 60, um salto de 140%. Levando em conta os últimos 10 anos, a liderança feminina cooperativista mais do que triplicou. Em 2016, eram apenas 205, e agora são 768 (aumento de 274%).

Lacunas

Apesar dos avanços, ainda há o que ser feito no quesito representatividade. Para as líderes cooperativistas, ainda há muito espaço a ser ocupado pela presença feminina. “Precisamos de mais mulheres em cargos de liderança, nas decisões e como exemplos. Quanto mais mulheres à frente, mais forte fica o cooperativismo”, defende Elvira.

Para Silvânia, deixar as mulheres de lado é desperdiçar o potencial produtivo da força feminina. “Eu acredito que o futuro do cooperativismo precisa ser cada vez mais feminino, não porque as mulheres devam ocupar o lugar dos homens, mas porque nenhuma sociedade consegue evoluir deixando metade da sua capacidade de liderança de fora.”

A presença feminina em espaços de gestão se retroalimenta, constata Ana Cristina. Jovens que observam mulheres tomando decisões em atividades produtivas tendem a enxergar novas possibilidades em sua trajetória.

“Quando uma mulher ocupa uma posição de liderança, ela demonstra para outras mulheres e para as novas gerações que aquele espaço também pertence a elas. Eu acredito muito na força do exemplo”, enfatiza a presidente da Cooperativa de Ensino de Quirinópolis.

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