O programa de autorregularização Incentivada de Tributos representa uma das várias respostas do governo brasileiro diante do desafio de equilibrar suas contas. Em meio a um cenário de déficits fiscais, a iniciativa busca ampliar a arrecadação sem a necessidade de elevar a carga tributária, permitindo ao contribuinte regularizar sua situação fiscal mediante condições facilitadas. Entretanto, a efetividade dessa medida, sem um controle equivalente sobre os gastos públicos, levanta questionamentos sobre sua capacidade de contribuir para um equilíbrio fiscal duradouro.
A autorregularização tributária funciona como um canal pelo qual os contribuintes podem renegociar suas dívidas com o fisco, abrangendo tributos administrados pela Receita Federal. O programa oferece a possibilidade de parcelamento das dívidas em até 48 meses, além da isenção de juros e multas, sob condições de adesão que incluem a confissão da dívida e o compromisso com a regularização fiscal. Para acessar o programa, os contribuintes devem cumprir com o processo de cadastramento via sistema digital da Receita Federal, detalhando os créditos tributários a serem regularizados, o valor de entrada e o número de prestações desejadas.
Essa estratégia procura incentivar a regularização voluntária de tributos atrasados e a conformidade fiscal futura, ao mesmo tempo em que oferece um alívio financeiro aos contribuintes. A adimplência esperada por meio da autorregularização tem o potencial de resultar em uma arrecadação mais robusta para o governo. No entanto, observa-se que, sem a implementação de políticas paralelas para conter os gastos, o impacto sobre as finanças públicas pode ser mitigado.
As despesas governamentais continuam a ser um ponto de atenção significativo. Medidas como a PEC da Transição, que previram um aumento de gastos, colocam em perspectiva a necessidade de uma administração fiscal prudente. A adequação entre o incremento de receitas previsto pela autorregularização e a gestão das despesas públicas é fundamental para o sucesso das políticas fiscais.
À medida que 2024 se aproxima com suas incertezas fiscais, o governo se vê diante do desafio de equilibrar a necessidade de investimentos em serviços e infraestrutura com a urgência de estabilização fiscal. A autorregularização tributária é uma peça desse complexo quebra-cabeça fiscal, que, se bem aplicada, pode ajudar a navegar o país em direção à estabilidade fiscal, embora não seja a solução única para os desafios estruturais a longo prazo.
Ao considerar o programa de autorregularização tributária, deve-se refletir sobre a relação entre o aumento da receita e a eficiência do gasto público. A busca pelo equilíbrio fiscal no Brasil é um objetivo que vai além das receitas, envolvendo também a qualidade e a sustentabilidade das despesas, fundamentais para o fortalecimento da economia.

Diego Dias Gonçalves
Economista, Cofundador e Sócio da Four Finances, Cofundador e Conselheiro da E³ Capital e Graduado em Ciências Econômicas pela PUC Goiás.