A cena das artes visuais em Goiânia ganha um de seus capítulos mais potentes com a abertura da exposição “Alopatia para Ancestralidade Inventada”, individual do artista Ebert Calaça, nesta quinta-feira, 13, na Vila Cultural Cora Coralina. Com curadoria de Gregório Soares Rodrigues, a mostra reúne mais de 80 obras inéditas produzidas nos últimos dois anos e marca uma nova fase na trajetória do artista, conhecido por integrar as linguagens da arte urbana ao circuito das artes visuais.
A exposição ocorre das 9 às 17 horas, com visitação gratuita até 9 de setembro. A mostra se consolida como um território dinâmico de investigação estética, onde tradição, ficção e mistério se entrecruzam. Ebert Calaça tensiona os limites entre a memória afetiva e a invenção poética com os guardiões, um conjunto de figuras enigmáticas, traços lúdicos e feições infantis que atuam como o fio condutor da mostra.
Segundo o artista, os personagens funcionam como entidades mitológicas e simbólicas de proteção e cura emocional diante da aceleração das dinâmicas urbanas contemporâneas. “De uma forma lírica, eu fui buscando criar seres mitológicos que têm a função de me guardar nessas batalhas cheias de dualidades da vida, repletas de certos e errado, caminhos e encruzilhadas. Os guardiões trazem esse desconforto, de olhar para nós, para a cidade, para os nossos conflitos e, ao mesmo tempo, encontrar arte e diversão”.

A mostra tem uma proposta que não se limita à contemplação passiva; ela cura e provoca. Ebert Calaça construiu uma atmosfera que desafia o visitante a encarar o estranhamento como vetor de descoberta, reafirmando o papel da arte contemporânea como campo aberto de invenção de mundos. “O termo alopatia, emprestado da medicina tradicional para designar o tratamento pelos contrários, surge aqui como uma metáfora para a própria prática artística. Assim, desenvolvi um processo de cura por meio da arte. Os guardiões nascem como uma dança imaginária para nos reconectar com a paz. É um xamanismo que exala na névoa do spray, onde as pinturas vibram como rituais e mantras”, pontua ele.
O processo criativo de Ebert Calaça é visceral e tátil. Em vez de telas convencionais, ele busca na abundância das ruas o papelão de grandes embalagens e o metal usado, apropriando-se de suas imperfeições, rugosidades e marcas de uso como se fossem cicatrizes da própria cidade. “Utilizo a memória impregnada no metal e as texturas do papelão. Deixo as marcas do material aparentes como cicatrizes. Foi assim que vieram à tona os guardiões, personagens que nascem como uma dança imaginária para nos reconectar com a paz e com a cura do caos cotidiano”, pontua o artista.
As obras criadas por Calaça funcionam como fotografias de esquecidos em lugares inexistentes, materializando elementos da espiritualidade, da pacificação da alma e da ancestralidade. Ao criar esses seres encantados, o artista busca resgatar identidades perdidas e projetar novas cosmologias. “Quando criei os guardiões, quis exaltar antigos cânticos, um xamanismo que exala na poeira da névoa do spray como em um ritual. As pinturas vibram como a repetição de um mantra”, revela.
Com uma trajetória reconhecida internacionalmente, Ebert Calaça iniciou sua caminhada no grafite e nas artes urbanas em Goiânia e Brasília, expandindo suas intervenções para capitais como Recife e para o cenário internacional, em Barcelona, na Espanha. Sua pesquisa estética transita com fluidez entre a liberdade da rua e o rigor das galerias de arte, buscando referências conceituais como o “estádio do espelho” do psicanalista Jacques Lacan, segundo o qual o indivíduo se reconhece e projeta suas próprias características no outro.


Celebração no Shiva Alt Bar
Na quinta-feira, 13, as celebrações do lançamento da exposição Alopatia para Ancestralidade Inventada seguem no Shiva Alt Bar, no setor Oeste. Em evento especial para Ebert Calaça, o bar terá o Samba na Varanda, em homenagem a Paulinho da Viola e discotecagem analógica de Oroní Pacheco. A programação conecta a atmosfera reflexiva da exposição à descontração da noite local, unindo música ao vivo, alta gastronomia e coquetelaria artesanal sob a mesma celebração da cultura e da brasilidade.
De acordo com o curador da exposição Alopatia para Ancestralidade Inventada, Gregório Soares Rodrigues, a produção de Calaça habita uma fronteira insubordinada entre o real e o fantástico. “O Ebert preserva, com a experiência artística, a capacidade de estranhamento e retorno. Os guardiões repetem-se e, sem pressa, obrigam o público a permanecer diante da dúvida até que seja capaz de iniciar uma conversa muda e descobrir suas diferenças, suas faces sem nome e sua disposição ao gesto lúdico”, avalia.
SERVIÇO
Exposição “Alopatia para Ancestralidade Inventada”, de Ebert Calaça
Visitação: de 14 de agosto a 9 de setembro
Horário: das 9 às 17 horas
Entrada gratuita
Local: Vila Cultural Cora Coralina, Sala Antônio Poteiro
Endereço: Rua 23, esquina com Rua 3, Centro, Goiânia
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